domingo, 1 de agosto de 2010

Maldita seja!

Ela está nas paredes da sua casa, nos seus CDs, livros, revistas, no outdoor da rua, nos programas que você ouve no rádio e assiste na televisão, nos sites que você acessa na internet e até nos seus sonhos. E, se você quer saber, ela está aqui também, agora, neste blog, fazendo bunda-lelê para você.

A maldita cultura pop invadiu a civilização globalizada e grudou como chiclete nos nossos ouvidos, olhos, mentes e corações. Escravizou a elite, os intelectuais, os alternativos e os atirou na mesma vala em que estavam os torcedores do Corinthians, os frequentadores de baile funk e os devotos de Nossa Senhora Aparecida.

Ok, não podemos ser tão duros com ela. Afinal, a maldita cultura pop nos proporciona entretenimento barato, atraente e de fácil compreensão. Por isso, é preciso reconhecer que ela é bastante útil quando torna a nossa miserável existência mais amena. Até aí tudo bem, mas nossa vida não pode se resumir a isso. Merecemos mais do que um punhado de ideias pasteurizadas. É ou não é?

Mas é preciso que se diga: ao contrário do que pode parecer, o propósito deste blog não é panfletar contra amaldita cultura pop. Não somos tão ingênuos a ponto nos transformar numa espécie de militante anti-pop. Isso seria ridículo. Mas não abrimos mão de entender essa praga que engoliu a nossa cultura e a vomitou de volta em nossa cara.

A maldita cultura pop levou a nossa alma, devorou a nossa personalidade e envenenou nossos pensamentos. E mesmo depois de tudo isso, ainda dedicamos nossas orações a ela todas as noites.

É por isso que eu repito: maldita seja a cultura pop! Maldita seja!

sábado, 30 de janeiro de 2010

O desconhecido "jabá"


A música brasileira entrou num impressionante processo de decadência. Errado. A música brasileira continua boa como sempre. Há grandes compositores, cantores, instrumentistas. Mas não é possível dizer que estejam em atuação. Tentam atuar. Não têm onde. Tentam viver da arte – tolice. São dentistas, fiscais do INSS, professores, motoristas de táxi, balconistas, colunistas de jornais – essas atividades garantem a sobrevivência. Tomam tempo – a criação artística, que é a atividade principal (estamos falando de artistas) acaba sendo deixada para as horas possíveis. A música brasileira que toca nos rádios, na televisão, nos grandes palcos, nos estádios, nas festas de São João, no carnaval, nas convenções de criadores de gado é que está em decadência. E só ela que aparece. A outra música, a boa, existe, mas não aparece. A culpa é dos radialistas, dos que montam trilhas sonoras de televisão, dos executivos das gravadoras, dos produtores de discos e espetáculos, dos marqueteiros da indústria de entretenimento. Essa gente criminosa está transformando, conscientemente, coração em tripa. É responsável pela seleção do que você ouve e deixa de ouvir. Essa gente está assassinando o que há de mais rico em nossa produção cultural. E ganhando muito, muito, muito dinheiro.

É essa a idéia. Ganhar dinheiro, e dane-se o resto. Um disco, na indústria, não é chamado de disco, mas de "produto". O produto precisa vender. Para que o produto venda, precisa ser exibido. Até agora, apenas regra de mercado, nada demais. No entanto, para que seja exibido, paga-se ao exibidor – ao programador de rádio, ao apresentador de programa de auditório televisivo. Como são muitos, os produtos, sobe o cachê do exibidor. É uma prática antiga, tem até nome: jabá.

Paga-se o jabá para que a música toque, sempre foi assim. Mas o mecanismo perverso foi ficando mais perverso. Quem pode pagar mais, consegue maior número de execuções. Isso é reproduzido no País inteiro. Quem pode pagar mais, escolhe o que você vai ouvir. E você fica achando que é só aquilo que se produz de música. Porque é só aquilo que está ao seu alcance. Quem não paga, não toca. Não existe.

Há alguns anos, uma igreja evangélica comprou a rádio FM Musical, de São Paulo, capital. Era uma rádio que só tocava música brasileira. Praticava o jabá, como todas, mas como a audiência era menor, o preço era menor. O que permitia o acesso às ondas sonoras a alguns artistas menos conhecidos – os tais que são dentistas ou fiscais do INSS. Às vezes, até sem pagamento de jabá programava a execução deles. Misturava um pouco de "música de mercado" e de música de verdade. Talvez por isso não tenha resistido. Há práticas alternativas de jabá. Um famoso letrista fez um disco independente, comemorativo de tantos anos de idade e de carreira. Armou pequeno esquema, alternativo, de distribuição do disco. Fiou-se, talvez, no nome famoso. Ouviu dos intermediários dos programadores de várias rádios: "Dá um aparelho de fax para ele que ele toca seu disco."

O retorno do investimento dos que pagam mesmo o jabá, o dinheiro alto, sai da venda de discos e shows, da venda de bonecos, camisetas, roupinhas para crianças, sorvetes, biscoitos, bicicletas, sandálias, lancheirinhas, pegadores de cabelo, batons, perfumes, roupas de cama e banho, coleções de lápis de cor ou o que se possa imaginar que possa ter estampada a marca do "ídolo". O "ídolo", por seu turno, cumpre a maratona de estar presente em todos os programas televisivos de auditório, garantindo audiência que vende os anúncios que sustentam os programas e fazendo a roda rodar, o preço subir. A presença do "ídolo" pode mesmo ser indireta: o apresentador Raul Gil, da TV Record (na época), prepara novos consumidores da bunda-music promovendo concurso de imitação do rebolado da Carla Perez, ex-É o Tchan. As candidatas têm 5, 6, 7 anos de idade.

Não há questão moral a ser considerada. O negócio é dinheiro. Um bom compositor, cantor, instrumentista vai ter de se submeter a determinados imperativos (ditados pelos que pagam a execução) ou fica de fora. Quem não entrar no esquema não aparece. Quem quer entrar no sistema precisa ter muito dinheiro – precisa pagar mais ainda, porque as "vagas" são limitadas. Se entra um, sai outro. Por isso existem as vogas, as ondas – um ano de música sertaneja, um ano de axé music, um ano de falsas louras bundudas, um ano de pagodeiros de butique, um ano de forró deformado, desforrozado (é o que se anuncia: preparem-se). E o preço vai subindo, a cada nova etapa da substituição.

Só quem entra no esquema, claro, é a grande indústria, que tem o dinheiro – e que inventou o esquema, afinal. No início da década de 90, o compositor Ivan Lins, com seu parceiro Vítor Martins, fundaram a gravadora Velas, para dar voz a uma quantidade imensa de músicos que eles conheciam, mas que estavam fora do mercado. Nomes como os de Edu Lobo, Fátima Guedes, Almir Sater, Pena Branca e Xavantinho, Guinga. Aliás, o primeiro disco da gravadora foi o primeiro disco de Guinga. A Velas tinha uma proposta musical alternativa ao padrão imposto pela grande indústria. Montou estrutura, divulgação e distribuição nacionais. O vendedor da Velas ia ao lojista oferecer o produto. Ouvia: "Quero, mas não vou pagar agora, pago se vender." Três meses depois, voltava o vendedor, para oferecer novo produto e cobrar o outro – que havia sido vendido. Ouvia: "Quero o novo, mas não pago o antigo, porque tenho de pagar à multinacional Tal, ou ela não me entrega a dupla sertaneja Qual & Pau."

Acontece que a dupla sertaneja Qual & Pau (pense na que quiser: Leonardos, Chitãozinhos, ou substitua dupla sertaneja por grupo de pagode ou por banda de axé) tem música na trilha da novela, paga para tocar em todos os programas de auditório e em todas as rádios – como o lojista pode ficar sem a dupla? Então, o lojista paga a gravadora que tem sob contrato a dupla sertaneja e não paga nunca a Velas, que tem o Edu Lobo (que infelizmente não tem música em novela nem toca em programa de auditório, muito menos no rádio). Perda por perda, o vendedor da Velas deixa o novo disco, sem receber pelo antigo – e assim a coisa seguiu. Em algum tempo, a Velas faliu. Está, no momento, porque os sócios são loucos idealistas, tentando voltar ao mercado.

Ou seja, estamos falando de economia, de lobbys, de pressões, não de música. Disco é negócio, todos sabemos. Precisa pagar-se, dar lucro. A questão é que os executivos do mundo do disco concluíram que o povo é burro e só vai consumir música burra. Então, o executivo da fábrica X inventa um grupo de pagode, paga para que ele apareça muito, etc. O da fábrica Y diz: "Este filão dá certo, vou nele", e inventa um grupo de pagode que imita aquele primeiro. É só o que eles fazem. Clonam-se uns aos outros. Se o Chico Buarque fosse bater à porta de uma gravadora hoje (Chico sabe disso, já disse que sabe disso) ouviria que sua música é "difícil" e não se enquadra nos "padrões da companhia". O mesmo com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Edu Lobo, Tom Jobim, Noel Rosa, Zeca Pagodinho, Cartola, Nélson Cavaquinho, Wagner Tiso: todos "difíceis", fora do padrão.

Claro: é preciso contratar o pagodeiro barato porque ele é orientável. Faça isso, faça aquilo, cante assim, vista-se assado, vá ao programa tal, diga tal coisa, mexa as cadeiras desse modo – e, sobretudo, não faça música. Ninguém trataria assim o Chico Barque – e já que ele não pode ser tratado assim, como coisa, como objeto, como ponta-de-lança de uma campanha de vendas, então afaste-se o Chico Buarque. Ele é "difícil".

Enquanto isso, o ouvinte vai acostumando o ouvido com as barbaridades criadas nos laboratórios de marketing das companhias de disco – padres cantores, traseiros cantores, sadomasoquistas cantores, falsas louras cantoras, negões vitaminados cantores. E perde a capacidade de comparar – comparar com o quê? O padre cantor com o traseiro cantor? Não há diferença. O ouvinte fica sem possibilidade de julgar (na verdade ele pensa que está escolhendo o grupo pagodeiro tal, quando, de fato, só sobrou para ele o grupo pagodeiro tal).

E os criadores... Bem, os criadores, os artistas verdadeiros, que existem, quase ninguém sabe, vão resistindo o quanto podem. Um dia, desistem – os novos Chicos e Caetanos, as novas Elis Reginas e Nanas Caymmis, os novos Jobins e Fátimas Guedes um dia desistirão. Precisam comer, vestir-se, sustentar filhos. A ganância dos executivos está promovendo um massacre da cultura brasileira que talvez não tenha similar na história da humanidade. Estão matando de fome o que temos de mais rico – nossa música. Matando de fome a inteligência e a sensibilidade.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Já ganhou na loteria hoje?


Na lotérica a moça do caixa pergunta ao senhor que espera seu troco das contas que ali foi pagar se ele deseja fazer um jogo. Ele diz já ter apostado hoje.
Mal ela sabe que foi muito irônica a resposta que teve.
Ele se refere a aposta que todos nós fazemos todos os dias sem saber. Apostas que as vezes são bem mais fáceis que uma sena , quina ou quadra. E muito mais valiosa.
Ele é bem informado e sabe que apenas 6.178 pessoas tem o azar de não ganhar esse prêmio. Isso em uma hora, já que somam 148.272 por dia. 54 milhões por ano, em média.
Esses números equivalem a pessoas que não apostaram. Ou duvidaram que poderiam perder caso não apostassem. Números que mostram bem as chances claras de ser contemplado com a derrota. Sem figuração: a morte.
Analisando bem e com cálculos não muito precisos, é 20 vezes mais fácil você morrer atropelado por um cavalo em pleno meio urbano que ganhar sozinho na sena. E eu digo morrer mesmo e não apenas se acidentar.
Tem pessoas que apostam alto no oposto como traficantes, policiais, assaltantes, bombeiros, etc. Tem aqueles que preferem um tipo de consórcio, ou melhor, a morte a longo prazo como fumantes, alcoólatras, consumidores excessivos de gordura trans e todos os tipos de viciados. E tem os que preferem não depender de terceiros ou de substâncias como os suicidas. Nesse caso o investimento na maioria das vezes da o resultado desejado.
Mas tem uma minoria que aposta na vida e mesmo assim está sujeita ao acaso, ou à vontade de Deus (no popular). Elas são vítimas da bala perdida, do motorista embriagado, da enchente, da doença hereditária, do pit bull do vizinho, da queda do avião e outros.
Aquele senhor não vê a lógica de apostar numa bolada se existe em 6.000.000.000, que é a média da população mundial , 40.463 chances de não estar vivo pra receber o cheque.
Aquele senhor prefere festejar com sua família mais uma aposta que veio a ganhar por apostar na vida.
Pois de uma coisa ele sabe. Apostando contra ela o ganhador não divide o prêmio com ninguém.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O teatro dos vampiros

Todos os dias quando ligo a TV e vejo novamente notícias que estão já "enchendo o saco" de todo mundo, como o sismo do Haiti, percebo que não é uma sensibilidade por parte das emissoras ou menos preocupação em relação ao estado de calamidade daquele país. Não estou sendo insensível com o fato mas realista quanto a impressão sensacionalista que essa mídia me passa.

Qualquer um sabe qual era a situação do Haiti antes da tragédia, ou seja, já era uma grande tragédia. A diferença é que a devastação anterior não foi feita pelas mãos da natureza. O país sempre foi extremamente pobre, sendo o mais pobre da América, 45,2% da população é analfabeta, a expectativa de vida é de apenas 60,9 anos. Sua renda per capita é extremamente baixa. Então porque a mobilização mundial apenas agora? Antes não se precisava de atenção?

Outro fato que me lembro bem da repercussão desnecessária foi a temida "gripe suína"(imfluenza A H1n1), que não passava de uma gripe comum com composição química diferente da tradicional. Mais uma vez digo que não estou sendo inconsciente quanto ao grau de risco do fato. Mas depois de algumas pequenas pesquisas percebi que os sintomas dessa tal doença mortal são os mesmos da gripe que estamos acostumados. Tanto que as recomendações médicas para os infectados são as mesmas, ou seja, repouso e ingerir bastante líquido. Qual doença terminal é curada com esse tipo de droga?

Na prevenção o estado gastou apenas com panfletos e rápidos conselhos por via de meios de comunicação. Nem metade do que se é gasto com a Dengue em um semestre.

Contudo, já se percebe como existe um exagero na tentativa de comoção. Mas porque?

É simples. Todos sabemos que a notícia é o que da lucro em um noticiário, senão não teria esse nome. Portanto, quanto mais ênfase derem a reportagem, mesmo que ela não tenha em si tanta importância, mais admiração terão de quem os assiste.

Não se importam com o que passam para frente, nem com a freqüência com que passam. O que poderia ser apenas uma informação passa a ser um filme com mocinhos, vilões, sobreviventes, mortos e heróis. Dando a impressão de que tudo não passa de uma ficção.

Uma pessoa morta por pneumonia no sul de Minas não teria nenhuma matéria editada em um jornal. Aliás, nem dez ou quinze pessoas mortas por pneumonia.

Já uma pessoa infectada pelo vírus H1N1 não terá apenas uma matéria como também será capa de um jornal e depois de curada facilmente será levada a programas de auditório pra explicar como foi tão difícil conviver com espirros e tosse, dor de garganta e febre. Como se a população não soubesse bem o que é isso.

O que faz parecer que o vírus é tão nocivo é o fato de que uma vítima do mesmo equivale à várias vítimas do outro vírus. Segundo a tabela de ibope dos tele-jornais.

A manipulação faz parte desses meios. Não desligue a TV como já fiz várias vezes, mas seja crítico à ela. Seja crítico à tudo. Inclusive à essa postagem.